“Urubus” é um filme bastante atípico, produzido no Brasil em 2020 e exibido no Festival de Cinema de Gramado no ano seguinte e ganhador de alguns prêmios internacionais de cinema independente. A ação se passa no centro da cidade de São Paulo e conta a história de um grupo de pichadores. Sabe-se que estes são jovens que têm como atividade principal escalar com muita audácia e de modo irregular prédios de alturas muito elevadas.
Seu objetivo imediato é deixar naqueles lugares marcas, feitas com tinta spray e, de modo geral, mensagens ou frases de teor político-cultural ou, mais comumente, com os nomes dos grupos ou deles mesmos, utilizando caracteres especiais, diferenciando-se das letras e desenhos convencionais. (Não confundir com os grafiteiros, que pintam também em muros e locais públicos, expressando-se por desenhos e cores artísticos).
Uma série de interpretações pode ser feita sobre os reais objetivos que estariam por trás das ações dos pichadores, como, por exemplo, procurar preencher necessidades psicológicas. Para fortalecer essa explicação, podemos citar também que buscam elevar a auto-estima; desafiar as autoridades e a sociedade em geral, consolidar a personalidade e a condição de integrantes ou até consolidar a liderança dentro daqueles grupos.
Nesse sentido, a psicologia identifica e define como “crise de originalidade” tal impulso de adolescentes e jovens, que procuram diferenciar-se, afirmar-se e encontrar-se a si mesmos, ao deixar gravado o próprio nome em lugares tais como carteiras e paredes dentro e fora das escolas ou em locais públicos. Por isso, resulta óbvio que o autor sublinhe, remarque, e utilize letras enormes nesses escritos.
A intenção também pode ser expressar a rejeição e rebelião, perante as injustiças da sociedade e a caretice – real ou suposta – da cultura tradicional. Às vezes esses sentimentos na tentativa de demonstrar independência podem levar a um individualismo selvagem e intransigente.
Com tais pressupostos – e outros, obviamente – se pode dar um marco geral, um contexto, para assistir e interpretar este filme. O relato, com direção do estreante Claudio Borrelli, vai ser protagonizado por Trinchas (Gustavo Garces), integrante de um grupo de pichadores. Ele e seu grupo estão próximos à periferia ou vivem e atuam em bairros pobres e/ou locais onde moram pessoas “sem-teto”.
A primeira sequência, com os preparativos e concreção da pixação de um prédio elevado, é quase documental, com imagens obscuras e falas cheias de gírias, como praticamente todos os 113 minutos da projeção. Vale destacar a interessante fotografia de Ted Abel, que é bem diferente da utilizada por César Charlone em “Cidade de Deus” – co-dirigida por Fernando Meirelles, aqui produtor -. Também chama a atenção a intensa labor dos responsáveis do som, principalmente o gravado em modo direto.
A vida de Trinchas muda quando aparece Valéria (Bella Camero), uma jovem universitária, estudante de arte. Ela se apresenta como jornalista, procurando uma entrevista com ele para conhecer de perto esse mundo. Assim nascerá um vínculo inicialmente profissional mas que os levará a uma relação pessoal mais íntima.
Esta presença dá lugar a breves discussões sobre o que significa arte. Será que as pichações são uma forma de manifestação estética de elevado nível? Mas, o que define arte? Assunto extremamente complexo, cujas delimitações (ou tentativas) não são simples, embora abordadas em forma teórica pelas enciclopédias, livros especializados, teses acadêmicas, cursos universitários ou de múltiplas instituições etc.
Lembramos também um título que impactou em seu momento: The Square – a arte da discórdia (2017, do suéco Ruben Östlund, o mesmo do também marcante Triângulo da Tristeza). Em The Square se evidencia e deixa ao descoberto o absurdo de pretender denominar arte a qualquer criação (bobagem?). Embora seja em outro sentido diferente deste que nos ocupa agora, fica a advertência de não misturar níveis e saber definir e enquadrar obras em uma expressão tão elevada quanto a artística. Não se deveria confundir artista com artesão, embora este último possa ser também criativo e ousado.
Estas e outras discussões intelectuais ficam abreviadas a um lema que se repete em Urubus: “Arte como crime. Crime como arte.” Continuando com o enredo, depois do mencionado percurso, o grupo enfrenta seguranças e policiais, brigas entre integrantes de gangues rivais e outras situações dessa índole.
Tudo indica que os vínculos entre os membros de tais grupos – inclusive os de pichadores – oscilam desde a amizade mais nobre e o respeito a “códigos” de conduta e relacionamento até os enfrentamentos mais violentos e cruéis, seja dentro ou fora desse ambiente. Na trama, após serem mostradas brevemente obras do original arquiteto Oscar Niemeyer, e acontecerem diversas situações, chega-se a um momento decisivo: a turma à que pertence Trinchas invade a Bienal de Arte de São Paulo (fato acontecido efetivamente, em 2008).
A pichação das paredes da Bienal e as brigas que produzem de forma imediata vão escandalizar a vida normal desse âmbito e da turma que o ocasionou. Porém, a longo prazo vai trazer benefícios locais e até internacionais. Em outro sentido, no relato há um deslocamento, de um início que pode produzir simpatia ou empatia, a um final, com desenlaces dramáticos bastante densos.
Os créditos finais são muito bem ilustrados por uma música de hip-hop, justamente o gênero dos pichadores e grafiteiros. Com a maioria das imagens houve esse paralelismo, mas a última música merece atenção especial, tanto em melodia quanto em letra, caso alguém tenha o costume, muito positivo, mas raramente cultivado, de ficar na sala de exibição até o fim dos créditos.
Em síntese, “Urubus” têm jovens como protagonistas e pode interessar a esse público, em especial àqueles que tenham uma personalidade rebelde e procurem desafiar convenções sociais, políticas e culturais.
por Tomás Allen – especial para A Toupeira