Um monólogo é um ato extremamente arriscado de se executar. Em mãos erradas, tal artifício pode tornar-se pouco interessante e passar longe do objetivo de prender o público através da “simplicidade” da presença de um personagem único em cena.
Por outro lado, quando tal trabalho é dado a profissionais competentes, a tendência é de que se torne algo memorável e tocante. Este é o caso do curta “A Voz Humana” (The Human Voice), que tem a sempre genial Tilda Swinton em momento de grande entrega sob a direção precisa de Pedro Almodóvar, na adaptação da peça homônima de do poeta francês Jean Cocteau, cuja primeira apresentação data de 1930.
A trama é descomplicada e até mesmo próxima de parte dos espectadores: Tilda interpreta uma mulher que, após quatro anos, vê sua relação ruir de modo incisivo, e com ares bastante problemáticos, já que seu ex-companheiro não parece disposto a voltar ao apartamento que dividia com ela, nem mesmo para buscar suas coisas, que seguem jazendo em malas em um canto da sala, há dois dias.
A atriz divide a cena apenas o cachorro também abandonado pelo ex, a quem procura (sem sucesso) fazer entender que seu tutor não voltará. A lealdade do animal é comovente, e quem convive com um, sabe que suas ações seriam mesmo as apresentadas em tela.
Quanto à interpretação de Tilda, em apenas 30 minutos de duração da obra é possível sentir todas as suas flutuações de humor: da indignação do abandono, ao sentimento de raiva incontrolável; da busca pelo amor-próprio perdido no meio do caminho, à falsa afirmação de estar encarando a nova situação de maneira tranquila.
Existe uma tensão no ar, que não se dissipa até os créditos finais, pois, com tais alterações de comportamento acontecendo de maneira simultânea, é difícil saber o que esperar como próxima ação da protagonista, enquanto transita por seu apartamento (explicitamente apresentado como sendo apenas um cenário em um galpão) e conversa com o ex-companheiro via celular.
Tal diálogo é feito com toda liberdade para se movimentar e realizar diversas ações, graças a um fone bluetooth sem fio que, muitas vezes parece parte dela, o que dá a ilusória sensação de estarmos vendo a mesma apenas externar seus próprios pensamentos em voz alta.
Em dado momento, uma cena mostra os ambientes vistos de cima, recurso que sempre me agrada e chama muito a atenção, pela sensação claustrofóbica que é capaz de causar. A personagem parece presa àquele mundo particular em que viveu um relacionamento a dois por anos e no qual agora precisa aprender a lidar com a solidão.
Com tantas possibilidades em aberto, dada à profundidade das palavras ditas durante a tal ligação telefônica, o final teria uma quase infinita gama de possibilidades, mas o que é decretado em tela parece ser um dois mais acertados, cuja força visual e emocional são igualmente impressionantes.
Vale a pena conferir.
por Angela Debellis
*Título assistido via streaming a convite da Synapse Distribution.
**Disponível em versão legendada para compra e aluguel nas plataformas Now, Amazon Prime, Vivo Play, Google Play e YouTube Filmes.