Seja por seu significado de grande conflito, fim dos tempos ou local da batalha final entre o bem e o mal, a expressão Armagedom carrega consigo uma importância que pode ser encarada com temor, dúvida ou respeito. Às vezes de todas as maneiras ao mesmo tempo.
A trama de “Armageddon Time” – exibida sob um eficiente tom sépia, típico na reprodução da época abordada – se passa no distrito do Queens, em Nova York, no ano de 1980, durante o período das eleições que levaram Ronald Reagan a seu primeiro mandato como Presidente dos Estados Unidos. E é apresentada pelo olhar de Paul Graff (Banks Repeta), personagem que é uma espécie de representação do próprio diretor James Gay, nesta obra autobiográfica, na qual também assume as funções de roteirista e co-produtor.
O jovem de classe média vive com os pais Esther (Anne Hathaway) e Irving (Jeremy Strong), e com o irmão mais velho Ted (Ryan Sell). Estudante da sexta série, o garoto ruivo e judeu frequenta uma escola pública local, onde faz amizade com um dos poucos alunos negros da instituição, Johnny Davis (Jaylin Webb). É através desse relacionamento que verá de perto as aflições e injustiças causadas pela desigualdade social e racismo.
Ao contar a história pela perspectiva de uma criança, o longa ganha contornos distintos: há o exagero típico da idade, graças ao qual coisas triviais ganham muito mais relevância – como a nem sempre cabida rebeldia de Paul, que faz com que tenha uma convivência que transita entre o carinho e maior paciência da mãe, e a sisudez que evoca dolorosas surras do pai (esta sendo uma das sequências mais impactantes do longa produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira).
O ponto de equilíbrio de Paul é seu avô materno, Aaron Rabinowitz (Antony Hopkins, em atuação impecável e comovente) – imigrante ucraniano que, ainda criança, fugiu com de seu país natal com a mãe, após serem vítimas de preconceito religioso. Os cenas de interação com seu neto são as que têm maior probabilidade de atingir o emocional do público.
Sonhando com um futuro no ramo da arte, o jovem protagonista se deixa levar por devaneios cuja dramatização em tela é muito bem feita. E, ao julgar-se tão sagaz, mostra-se apenas inocente, quando o percebemos incapaz – à primeira vista – de entender a gravidade de certos atos cometidos com Johnny (a quem, de modo injusto, um destino promissor parece algo tão distante quanto seu desejo de tornar-se astronauta da NASA).
Também vale dizer que é quase surreal o modo como “Armagedion Time” – canção de autoria de Wili Williams, lançada em 1977, e parte da trilha sonora do filme – mantém seus versos atuais: “Muita gente não vai conseguir jantar à noite. Muita gente não vai conseguir justiça essa noite. A batalha está ficando mais quente. Nessa vibração, tempo de Armagedom”.
Em muitos momentos, “Armageddon Time” pode ter um aspecto demasiadamente simples, sem um grande aprofundamento em assuntos de cunho político, social ou religioso, mas talvez esse seja o seu maior trunfo. Ao trazer tais pontos relevantes, sem a rígida imposição de nenhuma bandeira, acabamos enxergando o essencial, sem ruídos externos, como uma criança costuma sabiamente costuma fazer.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Universal Pictures.