“Não pense que o mundo acaba ali onde a vista alcança. Quem não ouve a melodia, acha maluco quem dança”. Parafrasear o verso inicial de “Mudar dói, não mudar dói muito”, canção interpretada e composta por Oswaldo Montenegro, é uma boa maneira de dizer como o espectador se sente frente à grandiosidade de “La La Land – Cantando Estações” (La La Land), dirigido por Damien Chazelle e um dos favoritos ao Oscar 2107.
Para se apreciar todo o potencial que um longa musical oferece, é preciso estar disposto a aceitar que é viável inserir um número de canto e dança no meio de um trânsito completamente parado (sequência que foi adaptada de maneira genial por Jimmy Fallon e candidatos ao Globo de Ouro, na edição mais recente da premiação). E essa receptividade já acontece desde o início da produção, quando é fácil abraçar a fábula dos protagonistas.
A trama se passa na cidade americana de Los Angeles e mostra o encontro de duas pessoas que têm em comum o anseio pelo sucesso profissional: Sebastian (Ryan Gosling) é um pianista apaixonado por jazz, que sonha em abrir seu próprio clube dedicado ao ritmo, apesar da consciência de que este já não tem o mesmo apelo de anos atrás. Mia (Emma Stone) é atendente do café localizado dentro de um estúdio cinematográfico, pretendente a atriz, que vê a desejada carreira cada vez mais distante, após inúmeros testes de elenco fracassados.
Falando sobre a “terceira protagonista” – a música propriamente dita: O filme tem uma das trilhas mais eficientes dos últimos tempos. Durante a projeção, a plateia passa por uma flutuação de emoções, de acordo com cada acorde, verso – há momentos em que um simples assobio já assume o papel de conduzir o espectador para dentro da cena, como se, de alguma forma, naturalmente este passasse a fazer parte da história.
Como se espera de uma obra do gênero, o conjunto como um todo é incrível e tudo funciona em sintonia: Os figurinos deslumbrantes, as locações fundamentais para o desenrolar da ação, as interpretações – sejam dos textos falados ou das canções originais que tanto enriquecem a narrativa (destaque para a lindíssima “City of Star”, interpretada de várias maneiras em situações distintas e para “Audition (The Fools Who Dream)”, executada durante um dos testes de Mia).
Entre tantos fatores que merecem destaque, um me chamou mais a atenção: é claro que as criações originais dão o tom à obra, mas foi inesperado e divertido acompanhar uma sequência que conta com faixas de três nomes do cenário musical dos anos de 1980: A-Ha, Soft Cell e a classificada por muitos como “banda de uma só música”, A Flock of Seagulls.
A trama, apesar de simples, consegue guardar surpresas, principalmente em seus momentos conclusivos, o que a torna ainda mais brilhante. E quando os créditos finais surgem na tela, é provável que os mais sensíveis precisem de alguns momentos para se recompor (é sempre bom levar lencinhos. Muitos).
Imperdível.
por Angela Debellis