Vale da Estranheza e Pediofobia. É quase impossível assistir a “M3GAN” sem pensar nesses dois quesitos, já que a protagonista que dá nome ao filme se porta de maneira assustadoramente realista, embora sempre haja algum ponto – em momentos específicos – que não deixem o espectador esquecer que se trata “apenas” de uma boneca.
Se, ao pensarmos em títulos envolvendo brinquedos macabros, estes tinham como pilar o sobrenatural (como os icônicos Chucky e Annabelle), agora o que intimida é a possibilidade de inteligências artificiais tornarem-se auto suficientes a ponto de ocuparem posições que cabem a seres humanos.
O roteiro escrito por James Wan e Akela Cooper gira em torno da inesperada convivência entre a roboticista Gemma (Allison Williams) e sua sobrinha Cady (Violet McGraw), após um acidente automobilístico vitimar os pais da garota.
Sem nenhuma intenção / aptidão para exercer o papel de mãe (ou, nesse caso, guardiã legal), Gemma recorre à área na qual é mais bem sucedida para lidar com a situação e traz para a rotina da menina uma criação ainda inédita e em fase de testes: Model 3 Generative Android, ou simplesmente M3GAN (voz de Jenna Davis e trabalho de corpo de Amie Donald) surge como uma aparente solução para os problemas daqueles que não têm tempo para priorizar relações familiares.
A conexão entre a boneca e a criança se dá de forma literal, criando um vínculo que beira a dependência, o que serve como uma inteligente crítica à sociedade atual, na qual usuários de equipamentos eletrônicos conectados à Internet tornam-se naturalmente submissos às funções tecnológicas.
E esse é o maior temor proposto pelo longa dirigido por Gerard Johnstone: a perda da capacidade de perceber que fronteiras estão sendo cruzadas, contanto que haja alguma satisfação momentânea ou ilusória. Ainda que M3GAN tenha inúmeras funcionalidades que visam contribuir para o desenvolvimento mental e emocional de seus usuários – entendam-se consumidores com possibilidades financeiras compatíveis com o alto valor do androide – ela permanece sendo uma máquina incapaz de sentir empatia (no real significado da expressão).
O desenvolvimento da relação de M3GAN e Cady faz com que o público passe a enxergar todos os perigos que rondam essa parceria. Entre eles, a falta de limites no que diz respeito à super proteção (sob a complicada promessa de que nada mais faria a garota sofrer) e as justificativas para atitudes agressivas – sejam físicas ou morais – após uma perda definitiva.
Tudo poderia (e até mesmo deveria) ser desenvolvido de modo mais explícito em tela, mas acaba sendo tolhido pela decisão de transformar o filme em uma obra permitida para espectadores a partir de 14 anos. Em vários momentos, a sensação é a de que havia muito mais a se mostrar antes das alterações feitas para a diminuição da faixa etária, o que gera a expectativa da oferta da versão sem cortes em algum momento após o lançamento em home vídeo.
O que não significa que a narrativa é desinteressante, pois a qualidade de sua premissa é tão grande, que ela permanece relevante através de ótimos recursos criativos, como a já famosa sequência de dança vista no trailer oficial (tão surpreendente, quanto assustadora) e a transformação de uma música com letra pouco amistosa (“Titanium”, de Sia e David Guetta) em uma canção de ninar que faz uma genial alusão ao material base na confecção da boneca.
Enquanto se estabelece entre os ícones do gênero, e com uma ótima recepção a esta primeira produção, “M3GAN” tem tudo para se tornar uma memorável franquia.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Universal Pictures.