Existe um risco enorme ao tentar se vender determinada ideia. No caso de “Presença” (Presence), aqueles que forem aos cinemas esperando por um filme recheado de sustos podem acabar se decepcionando.
O que é uma pena, porque o longa dirigido por Steven Soderbergh (também responsável pela fotografia da produção) tem muito a oferecer, ainda que passe longe de soluções “fáceis” do gênero terror.
A trama nos apresenta os membros da família Payne, que mudam de residência em busca de novos ares, enquanto enfrentam problemas pessoais. Chris (Chris Sullivan) e Rebekah (Lucy Liu) são um casal que passa por uma crise no casamento, provocada por fatos envolvendo a empresa dos dois e pela discrepância da maneira como cuidam de seus filhos.
Eles são pais de dois adolescentes: Tyler (Eddy Maday), o primogênito, bem sucedido nos estudos e nos esportes, cujas ações (mesmo quando deploráveis) são motivo de um orgulho materno que beira o inaceitável. E Chloe (Callina LIang), a caçula que não tem nada que a coloque a destaque e que passa por uma grave crise depressiva, após a morte misteriosa de sua melhor amiga, Nádia (Nathaly Sabino).
O roteiro de David Koepp é centrado na rotina (por vezes monótona) dessa família e transforma suas vivências individuais em peças de um quebra-cabeça mais significativo do que parece a princípio.
Tudo é mostrado pelo ponto de vista da tal presença do título. Os movimentos de câmera nos colocam na posição da entidade, que torna-se uma espécie de observador (nem sempre passivo) do que acontece dentro da casa – esta, o único cenário no qual se desenrola toda a ação.
Além do quarteto de protagonistas, duas figuras têm participações que se mostrarão relevantes em algum momento: a vidente Lisa (Natalie Woolams-Torres), que afirma serem verídicas as declarações de Chloe, quando a jovem afirma ter, além de sentido, literalmente presenciado algumas ações do espectro, como se houvesse um vínculo mais forte entre elas.
E Ryan (West Mulholland), colega de escola e amigo recente de Tyler, que por trás da aura popular, confessa também ter problemas familiares (embora bem diferentes) e desenvolve um relacionamento casual com Chloe.
Se a ideia de usar a câmera como ponto de vista de um personagem não é nova, o modo como tal recurso conecta o público à narrativa é um dos grandes méritos do longa. É como se cada espectador se tornasse um novo observador, com o acréscimo da angústia de não poder intervir em nenhum momento, nos cabendo apenas acompanhar o desenrolar dos fatos.
Próximo ao seu término, o filme tem uma mudança drástica de ritmo e postura e entrega uma das melhores sequências, com uma revelação que talvez vá confundir alguns, mas que será o motivo que tornará essa obra memorável para muitos.
Essa conclusão também pode ser interpretada de uma maneira mais simples e óbvia, mas aceitar a inesperada complexidade da história faz com que a experiência de assistir a “Presença” torne-se bem mais interessante.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Diamond Films.